Mercado energético

Gazprom acusa<br>hostilidade europeia

O gigante energético Gazprom avisou, na passada semana, de que poderá reorientar as suas exportações para a América do Norte ou Ásia, caso os países europeus continuem a opor-se aos seus projectos de desenvolvimento no velho continente.

O gigante russo recusa abrir os seus oleodutos aos estrangeiros

Esta declaração, que fez a manchete da edição de quinta-feira, dia 20, do jornal Financial Times, foi a resposta do grupo à intenção anunciada pelo governo britânico de tornar mais restritiva a legislação sobre fusões e aquisições para assim impedir a tomada do controlo da Centrica, o principal distribuidor de gás do país, pelo gigante russo.
A Gazprom, detida em 51 por cento pelo estado, dispõe das maiores reservas energéticas do planeta, assegurando cerca de 20 por cento da produção mundial de gás. A sua dimensão é comparável a uma BP ou Shell, com uma capitalização superior a 200 mil milhões de dólares.
Nos últimos tempos, deixou de se contentar com o mero fornecimento do precioso hidrocarboneto no quadro de contratos de longo prazo com os grandes grupos europeus. O seu objectivo é agora alargar a actividade ao mercado da distribuição, o que lhe permitiria eliminar intermediários e obter preço final duas vezes superior.
Para tanto, a Gazprom precisa de fazer aquisições na Europa, onde praticamente todas as companhias estão na sua lista potencial, segundo afirmou Dmitri Medvedev, num fórum económico realizado, dia 25, em Londres.
O vice director-geral do grupo não esconde as suas ambições de expansão e diversificação. Para além do gás do petróleo, nos seus planos está igualmente a electricidade mediante a entrada para o capital de centrais europeias.

Luta de interesses

Contudo, estes planos esbarram com uma política europeia claramente hostil ao gigante russo. Este vê, por um lado, Tony Blair, um dos paladinos do liberalismo, fechar-lhe as portas em nome da segurança energética do país. Por outro, é a própria Comissão Europeia que tenta minar-lhe o terreno, em nome da concorrência, desejando pôr fim aos contratos de longo prazo acordados até aqui entre as partes, de modo a garantir a estabilidade do fornecimento e escoamento e rentabilizar os enormes investimentos em infra-estruturas.
Bruxelas insiste nos objectivos da Carta Energética, assinada em 1994 com os países da antiga União Soviética, a qual previa, designadamente, a abertura dos gasodutos russos aos grupos estrangeiros. A razão era alegadamente tornar as trocas energéticas mais seguras.
Contudo, Moscovo nunca chegou a ratificar o acordo e, hoje, Medvedev não hesita em declará-lo um «nado-morto». A Gazprom, afirma, irá conservar o monopólio das exportações de gás «durante várias gerações».
Em meados de Abril, em Moscovo, perante embaixadores dos Vinte e Cinco da UE, Alexei Miller, o número 1 da companhia, já tinha denunciado uma «politização» da questão do gás, quando, a seu ver, se trata de um dossier «puramente económico». Miller, preveniu de que a sua empresa poderia encontrar novos clientes nos Estados Unidos e na China, lançando um inquietante repto aos presentes: «Cumpram os vossos compromissos comerciais!».


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